Por que a China lidera o mundo em Inteligência Artificial?

Quantidade de dados, atuação do governo e capital dedicado a tecnologia são fatores essenciais para entender a liderança chinesa

Ricardo Geromel é fundador do San Francisco Deltas e sócio da StartSe

23 de abril de 2018

Se você considera inteligência artificial (IA ou AI, em inglês) como um termo muito distante do seu dia-a-dia, “coisa de nerd”, ou “algo impossível de entender”, lembre-se que quem sabia enviar um e-mail ou usar uma planilha de Excel 30 anos atrás era chamado de futurista. E a velocidade de adoção de novas tecnologias está cada vez mais rápida.

Sundar Pichai, CEO da Google, disse “Inteligência artificial é provavelmente a coisa mais importante que a humanidade já desenvolveu. Eu penso nisso como algo ainda mais profundo do que eletricidade ou fogo”.

Vladimir Putin, líder máximo da Rússia, declarou “quem liderar AI, vai dominar o mundo”.

Andrew Ng, ex-cientistas chefe da Baidu (espécie de Google da China), co-fundador da Coursera e professor de Stanford, afirmou “Inteligência Artificial é a nova eletricidade. 100 anos atrás, a eletricidade alterou as principais industrias. IA já avançou o suficiente para começar a transformar”. Inteligência artificial é o que vai empoderar a próxima onda de tecnologia, a próxima revolução.

Quando pessoas desse calibre falam, eu acho que vale a pena prestar atenção. Eu tenho como filosofia pessoal tentar sempre “subir nos ombros de gigantes” e aprender com os melhores. No campo de inteligência artificial, as líderes mundiais são certamente a China e os EUA. A CB Insights, uma consultoria da nova economia, declara que em IA, China e EUA dominam.  Kai-Fu Lee deu uma palestra louvável no MIT sobre IA e o futuro do trabalho. Lee completou seu PhD em inteligência artificial na prestigiosa Universidade Carnegie Mellon em 1988, trabalhou na Apple, SGI, Microsoft e Google e hoje lidera o Sinovation Ventures, um fundo de investimento de capital de risco focado em startups em estágio inicial. Ele concluiu que, em grande parte graças aos avanços de IA, carros autônomos serão uma realidade nos EUA entre 15 e 20 anos, mas na China será em apenas 10 anos.

Inteligência artificial existe há mais de 50 anos. Porém, uma das razões principais para o avanço recente é a quantidade de dados disponíveis. Quanto mais dados, melhor para avançar inteligência artificial. Sem quantidade expressiva de dados, a inteligência artificial tem dificuldade em avançar.  A China tem uma população mais de 4 vezes superior ao dos EUA, logo gera mais dados. Além disso, os chineses estão mais habituados a pagar via telefone, gerando muito mais dados. Em 2016, foram gastos na China mais de US$9 trilhões em pagamentos via dispositivos moveis (smartphones, tablets, etc) e nos EUA foram gastos apenas US$ 112 bilhões – cerca de 80 vezes menos. Aqui em Shanghai vários estabelecimentos não aceitam cartão de crédito e o pagamento via telefone impera em cafés, restaurantes, frutas na feira, lojas de grife, entrada de templos, etc. Essa proliferação do uso de smartphones no pagamento gera muito mais dados do que compras via dinheiro.

Outros fatores essenciais para entender a liderança chinesa em AI, incluem a atuação do governo e a quantidade de capital dedicado a esta nova tecnologia. O governo chinês anunciou publicamente sua intenção de ser o principal centro de inovação em inteligência artificial do mundo até 2030. Empresas de inteligência artificial na China receberam mais investimentos do que empresas de IA nos Estados Unidos e também desenvolveram mais patentes.

CB Insights

O Google não funciona na China desde 2010, mas a gigante de Mountain View anunciou em Dezembro de 2017 que iria abrir um centro de inteligência artificial em Pequim. As empresas da nova economia sabem que o seu ativo mais importante são suas pessoas. No Vale do Silício está ocorrendo uma guerra! A famosa guerra por talentos em inteligência artificial. A arma principal tem sido pagar salários astronômicos para os principais talentos, como se fossem jogadores de NBANa China, há qualidade, quantidade e preços mais acessíveis para contratar especialistas. Aliás, duas das empresas mais fascinantes de AI e que estão causando rebuliço mundial são as chinesas Face++ e SenseTime, que empregam AI no reconhecimento facial para ajudar governos locais nos quesitos de segurança, rastreamento de terroristas e mais.

Em 2011, Anderseen Horwitz, bilionário Americano, escreveu um artigo para o Wall Street Journal anunciando que “Software vai devorar o mundo”. A norma no Vale do Silício é escutar que no futuro próximo todas as empresas, todos os setores serão de alta tecnologia! Alguns acreditam que até o próprio ser humano vai se tornar “high tech” e vamos ou viver para sempre ou por centenas de anos. Aqui em Shanghai, eu escuto que AI terá implicações em todas as empresas. Não vi nenhum(!) pitch (apresentação) de startups locais que não mencionam IA como parte essencial da sua estratégia.

Nessa nova economia em que vivemos as coisas mudam em uma velocidade avassaladora. O primeiro iPhone foi lançado há pouco mais de 10 anos. Hoje é difícil imaginar nossas vidas sem smartphones. Ainda é normal que um recém-formado em engenharia de software ganhe mais de 100 mil dólares por ano no Vale do Silício. Os exemplos mais banais de como AI já faz parte no nosso dia-a-dia são: nas recomendações de filmes do Netflix, no newsfeed do Facebook, quando você fala com a Siri ou Alexa, quando você compra na Amazon, ao ouvir música no Spotify, nas suas buscas no google, nos portais de noticias das principais publicações do mundo, etc. Em breve estará nos serviços médicos, na tua geladeira, no jeito que você estuda, nas guerras… será como o smartphone, omnipresente. E várias destas tendências serão iniciadas na China, que desponta como a líder mundial em inteligência artificial.

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