Entenda como Israel se tornou a “startup nation”

É um país no meio do deserto, em guerra perpétua com os vizinhos e com uma população de 8,8 milhões, mas tem mais startups que o Brasil

Israel

Ricardo Geromel é fundador do San Francisco Deltas e sócio da StartSe

14 de maio de 2018

Israel tem menos de 9 milhões de habitantes – 0.1% da população mundial – mas apresenta mais empresas listadas na Nasdaq do que qualquer outro país, salvo Estados Unidos e China. Além disso, tem mais startups, cientistas, capital de VCs, engenheiros, patentes médicas, taxa de gasto em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e profissionais em tecnologia do que qualquer país do mundo em termos per capita. Israel é, sem a menor sombra de dúvidas, um dos ecossistemas empreendedores mais maduros do mundo. Intensa integração e alinhamento em termos da importância do empreendedorismo para o país entre players da iniciativa privada, governamental, acadêmica, grandes empresas, startups, militares somados com capital abundante, cultura que apoia o empreendedorismo e visão focada em criar negócios globais. Mais de 300 multinacionais apresentam centros de pesquisa de alta tecnologia no país, incluindo as gigantes Microsoft, IBM, Apple, Cisco, HP e Intel.

A primeira missão Israel organizada pela StartSe começou neste domingo, 13 de maio de 2018. É isso mesmo! Aqui em Israel o pessoal trabalha normalmente de domingo.  O pontapé inicial foi uma breve palestra do fundador da StartSe, Junior Bornelli seguida de uma palestra aprofundada do Prof. Udi Aharoni, CEO e diretor acadêmico da Lahav.

Na semana passada Jack Ma, fundador da Alibaba e um dos maiores empreendedores do mundo, esteve aqui na TAU (Tel Aviv University) e deu uma palestra! Escolhemos começar nossa primeira StartSe missão Israel neste local por dois motivos principais. Primeiro: acredito que educação deve ser destacada como a base de todas as grandes conquistas e também pois acredito. Segundo: universidades de excelência tem papel fundamental em um ecossistema empreendedor maduro. O Vale do Silício não teria atingido o status de epicentro mundial de inovação sem Stanford e Berkeley.  

Universidade de Tel Aviv (TAU) é a maior e mais abrangente instituição de ensino superior de Israel. É o lar de mais de 30.000 estudantes estudando em nove faculdades e mais de 125 departamentos. Consistentemente classificado no Top 20 do mundo em termos de citações científicas e entre os Top 100 universidades internacionais, TAU é conhecida por ter graduados como os mais procurados pelas empresas israelenses. Global em perspectiva e impacto, a TAU tem orgulho em mesclar matérias e fazer o ensino interdisciplinar. O acadêmico professor Udi Aharoni, CEO e Diretor do centro Lahav, deu uma aula-magna aprofundando nos detalhes porque a nação atingiu o posto de Startup Nation. Segue alguns pontos que justificam o título de Startup Nation para o nanico país em termos geográficos e de tamanho de população e gigante em termos de inovação:

  • Cultura empreendedora. A sociedade valoriza empreendedores e aceita e celebra fracassos. Entre 1999 e 2014, apenas 4 de 100 startups tiveram sucesso de acordo com estudo do professor Udi Aharoni. Mas, o número total de startups aumenta a cada ano.
  • Apoio governamental para investimentos em inovação. Governo investe cerca de 4.2% do PIB em inovação. Por cerca de 20 anos, Israel foi o líder global nesta importante métrica, mas no último ano a Coreia do Sul ultrapassou. Para incentivar investimento em startups, em 1991 o governo criou um modelo de incubação que dava dinheiro para startups sem ter participação no capital social da empresa. O governo estabeleceu em 1991, que para cada dólar que for investido em empresas de alta tecnologia que faziam parte do famoso programa de incubação, o governo também investiria a mesma quantidade na empresa. Ou seja, se a empresa precisava de 1 milhão de Shekels, podia levantar apenas 500 mil Shekels e o governo colocaria o restante. A diferença é que a contra-partida para o governo não seria equity (participação no capital social da empresa). Ao invés, se a empresa der certo, o governo pediria apenas o retorno do capital investido mais juros. Se desse errado, como acontece com a maioria das startups, o Estima-se que para cada dólar investido pelo governo, estima-se que gerou US$5 ou US$6 para a economia global. Hoje em dia, o governo não apoia mais esta iniciativa pois já há capital suficiente para startups.
  • Capital abundante para startups na nova economia (high tech companies). Apenas em 2017, mais de US$5,2 bilhões foram investidos por VCs (venture capitalists) em Israel. Sendo que 84% deste capital veio de fundos estrangeiros. Em 2016, mais de US$ 4,831 bilhões foram investidos por VCs em Israel; sendo que 87% veio de fundos não baseados em Israel.
  • Sociedade dá boas vindas a imigrantes. Dos cerca de 8,8 milhões de habitantes, mais de 3,1 milhões são imigrantes, sendo mais de 1 milhão oriundos da Rússia. Grande parte destes imigrantes russos chegaram em Israel com alto nível de educação.
  • Alta exposição cultural para outras culturas. Dentre os 8,8 milhões de habitantes, mais de 4 milhões dos habitantes viajaram para o exterior. Essa proporção é extremamente alta. De acordo com o professor Udi, essa curiosidade pelo novo e por outras culturas ajuda a explicar porque Israel inova tanto. Eu concordo, costumo dizer que não importa qual a pergunta, a resposta é viajar. Mais de 30% dos israelenses com mais de 20 anos viajou ao exterior pelo menos uma vez nos 12 meses anteriores, segundo o Centro Nacional de Estatísticas do país.
  • Integração acadêmica com foco em aplicações práticas. Em Israel, temos 9 universidades, 54 colleges, #3 em publicação cientifica no mundo, foco em pesquisas com fins práticos. Orgulho em ter muito conhecimento em transferência e comercialização de conhecimento.
  • Integração do Exército na sociedade. Tecnologias criadas para fins militares acabam sendo usados em outros fins. Israel é um dos principais exportadores de armas do mundo e de drones. Ao completar 18 anos os homens vão para o exército por 3 anos. As mulheres por 2 anos.
  • Valoriza a educação. Maior número de engenheiros e cientistas per capita (135 engenheiros e 140 cientistas e técnicos por 1 mil empregados). 12 ganhadores do premio Nobel, 6 na última década (a verdade é que muitos são Judeus e não necessariamente vivem em Israel hoje. O costume diz que se o filho de mãe é judia, é judeu.
  • Condições especiais para empresas internacionais buscando investir em abrir centros de pesquisa e desenvolvimento em Israel. Destacou que a presença da China pode ser sentida cada vez mais forte aqui em Israel. Tente adivinhar aonde Alibaba abriu seu primeiro centro de pesquisa fora da China. Xiaomi, Huawei e outras gigantes chinesas já possuem centro de pesquisa e desenvolvimento em Israel.
  • O país é muito pequeno em termos de população total. Portanto, os empreendedores aqui criam empresas que desde o primeiro dia são globais. O professor Udi destacou que ficou surpreso ao conhecer empreendedores brasileiros que possuem websites que não apresentam versão em inglês.

Israel apresenta um dos mais maduros ecossistemas de empreendedorismo do mundo. Tel Aviv é top 7 em qualquer ranking sério que leva em consideração as melhores cidades do mundo para começar uma startup. Enquanto Jerusalém é a capital e a cidade mais sagrada de Israel, Tel Aviv é seu coração econômico.

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