Exclusiva – O Burnout no Ecossistema de Startups

Sobrecarga de trabalho pode levar a síndrome do esgotamento profissional, o que tem afetado muitos profissionais em startups

Jornalista, comunicadora de startups e apaixonada por tecnologia.

7 de junho de 2018

Trabalhamos com tecnologia, mas não somos robôs. Temos emoções e às vezes elas gritam dentro da gente pedindo socorro – e se não ouvimos, o corpo dá um jeito de se fazer escutar. Foi assim com a empreendedora Ana Karolina, 27 anos, que sempre às 18h, no escritório da Worldpackers, tinha fortes crises de gastrite. Um vazio em forma de ar inflava sua barriga e a corroía por dentro com uma dor insuportável. Em algum momento, Karol se desconectou dela mesma e ao perceber isso, resolveu observar os sinais como um convite para repensar a sua rotina de vida e de trabalho, colocando especial atenção ao desenvolvimento de sua inteligência emocional.

Na minha visão, a mente humana é a mais avançada das tecnologias. Precisamos lembrar que as pessoas são o maior capital de uma startup, todo o resto é trivial. Mas poucas startups estão investindo na gestão e inteligência emocional de suas equipes”, avaliou Karol, que hoje pesquisa e desenha experiências e metodologias para gestão emocional, comunicação profunda e desenvolvimento da confiança em grupos.

Foi durante a fase na Worldpackers que a jovem mais aprendeu e se divertiu na vida. Ela tinha real paixão por viagens, colaboração e pelo propósito da empresa, uma conexão inacreditável. No entanto, quando existe tamanha paixão envolvida por algum projeto, somos também capazes de fechar os olhos para muitas coisas, principalmente para nós mesmos. “Muitos livros de empreendedorismo vendem a ideia de que se você não está doando 100% da sua vida pelo seu sonho você não é tão empreendedor assim. Se a pessoa não tem clareza sobre o que são esses 100%, vai acabar negligenciando partes importantes da vida que, inclusive, são cruciais para ter saúde mental e ser um bom profissional”, explicou.

A síndrome do esgotamento profissional ou burnout é um transtorno de difícil diagnóstico que vem atingindo cada vez mais pessoas ao redor do mundo. No Brasil, a doença afeta 32% da população economicamente ativa. Nesta reportagem trouxemos vários depoimentos de profissionais que chegaram ao limite físico e mental. Vamos desmistificar o que são os transtornos mentais, nossos limites humanos e dar dicas para quem busca mais equilíbrio em um mundo frenético e cada vez mais acelerado.

1-  Limites biológicos e o Impacto nos Negócios

1A. A visão das empreendedoras

A Daniele Junco, 37 anos, CEO da aceleradora B2Mamy, abriu seu coração para esta reportagem. Ela percebeu que tinha algo errado depois de quase um ano e meio lutando pela empresa. “Foram muitos nãos, dinheiro próprio, expectativas da rede, muitos MVPS rolando ao mesmo tempo, muitos palcos para reforço de marca e ao mesmo tempo dores de cabeças frequentes, insônia e sem fome. Mas eu estava feliz e estar feliz também entorpece. Fui ignorando os avisos do corpo. Até que acordei com um lado direito do rosto paralisado e suspeita de AVC. Direto para internação no hospital”, lamenta.

A experiência foi importante para que a empresária consiga se precaver e não chegar ao limite – hoje ela busca mais o autoconhecimento e tenta ouvir os sinais do corpo. Daniele sugere aos empreendedores que ao pensar em abrir uma empresa pensem em uma tríade de importância:

Comportamento – qual modelo de negócio eu gostaria de ter operacionalmente falando

Conexão – quem são as pessoas que me ajudariam a cortar caminho e suportariam comigo os momentos difíceis

Habilidade – quais as habilidades que eu tenho ou que preciso me aperfeiçoar sem me levar a um alto grau de ansiedade.

Laura Gurgel, 31 anos, empreendedora, também sentiu na pele o resultado de sua negligência com a saúde. Em 2017 ela se viu totalmente desorganizada, incapaz de manter o foco nas suas atividades e reter informações. Não conseguia parar de trabalhar por não atender as demandas, e não conseguia supri-las porque estava exausta. Ao mesmo tempo, não tinha como lembrar das coisas, não sabia por onde começar ou como se organizar. Com isso, crises de ansiedade e de choro, por não saber o que fazer. No corpo, dores, cansaço, desânimo, insônia.

“As pessoas acreditam no mito do empreendedor que nunca dorme, que precisa fazer tudo, sem descanso, até atingir o ‘primeiro milhão’. As pessoas surtam, ficam doentes, não sabem para onde ir. Essa mística que foi criada ao redor do empreendedorismo só faz com que as pessoas percam em absoluto o senso de quão importante é viver de forma equilibrada”, avaliou.

Para Laura é difícil mudar porque somos levados a acreditar que é errado assumir nossas falhas e limitações. “Não podemos errar, não podemos fraquejar, não podemos descansar. Um erro é imperdoável, que dirá falhar no empreendimento. Fui buscar ajuda porque entendi que era isso ou surtar de vez: não desempenhava minhas atividades, a empresa ia muito mal e estava prejudicando minha saúde física e mental”, explica.

1B – A visão dos empreendedores

Felipe Collins, 29 anos, CMO e sócio da ACE explica que quando você empreende o trabalho é praticamente indissociável da vida pessoal. Isso faz com que se perca a noção de tempo. Então, a pessoa passa a dormir menos e a se alimenta pior. A ansiedade também afeta a rotina e, aliada ao sono, diminui a capacidade de raciocínio, ponderação e tomada de decisão. Ele já teve distúrbio do sono por conta de longas jornadas de trabalho. O “terror noturno” é como um sonambulismo, mas a pessoa se torna agressiva e até violenta enquanto dorme, reagindo a pesadelos gerados por uma intensidade absurda de estresse e ansiedade.

“Isso fez com que em algumas ocasiões eu acordasse no meio da noite gritando, xingando, pulando da cama ou, como aconteceu e foi o estopim, tentando agredir a minha parceira. Isso me fez apertar um “hard stop” no que eu estava executando para fazer um balanço e identificar onde estavam as causas. Procurei ajuda tanto dentro de casa quanto no trabalho para entender como outros superaram desafios similares e como eu poderia melhorar”, disse. Felipe buscou ajuda profissional para o problema, e fez diversas sessões de Terapia Cognitivo Comportamental. Ainda hoje ele tem “recaídas” de estresse, mas consegue perceber com muito mais facilidade quando alguns gatilhos são acionados.

Já com João Marinheiro, 30 anos, empreendedor, os primeiros sinais foram de um cansaço que não havia sono que resolvesse, começou a passar finais de semana recluso buscando se recuperar e ao menor sinal de trabalho, a estafa voltava como se não houvesse descansado nada. Com o tempo, o cansaço foi evoluindo para falta de energia de forma geral e começou a afetar o humor, o interesse com as coisas e, ao chegar nesse estágio, o prognóstico já não é promissor.

Para João, o grande risco é não ser nada além da sua “persona” empreendedora. “Buscar outras atividades que lhe deem prazer e equilibrar a rotina com uma agenda definida e priorizada para você também é fundamental. Empreender demanda muito, obviamente, mas se você se organiza, consegue dedicar 2 vezes por semana 1 hora a uma atividade prazerosa, e lidar com imprevistos de forma a manter esses compromissos. Você pode parar sua jornada de trabalho, ir ao seu compromisso, e terminar suas tarefas depois, se for algo urgente. A sensação de estar em dia consigo mesmo é muito satisfatória”, disse.

Já Christian Saiki, 26, sócio na TheVelops, costumava trabalhar 14h por dia. Hoje, ele não faz mais isso e valoriza a prática de atividades físicas. “Empreender realmente é uma maratona e que só ganham as empresas e pessoas que conseguem ser eficientes e produtivas por bastante tempo, então eu recomendo ao empreendedor a trabalhar menos só que de maneira mais produtiva e também que faça exercícios de alta intensidade tipo Crossfit porque eu percebi que me ajuda muito”.

2- Mentores também não são de ferro!

Falamos com dois grandes mentores do ecossistema de startups que também chegaram a ter esgotamento profissional e aprenderam a lidar com os limites do corpo e da mente.

Juliana Lima, mentora e especialista em comunicação e eventos

Para Juliana Lima, “vemos horas trabalhadas como status, quando deveríamos ver resultado como status. Independente do número de horas que você trabalha se você não entregar resultado, não vale nada. Além disso é preciso saber fazer as pausas necessárias para não ter um “curto-circuito”. Veja o depoimento dela abaixo:

“A gente sempre acha que está tudo bem, que consegue ir até o limite e muitas vezes passar dele, não quer dar o braço a torcer, fazer uma pinta de super-herói e ser perfeito. Mas uma hora o seu organismo vem e fala “tá se achando, né? Vamos dar um jeito nisso para você aprender.” No meu caso, eu simplesmente apaguei, do nada. Quando voltei a mim, estava com o coração acelerado e um cansaço que nunca havia sentido. O médico me disse duramente: pare um dia, não faça nada, não atenda telefone, não assista nem televisão, apenas durma e descanse, senão você irá morrer. A partir deste dia, eu paro quando sinto que não funciono mais. Você tem que se dar este tempo.” 

Juliana explica que ter autoconhecimento e saber reconhecer os próprios limites são o segredo para não chegar a uma situação limite como essa. Uma das técnicas que  utiliza chama Pomodoro Technique, que ensina a focar em uma tarefa apenas por 25 minutos, com intervalos obrigatórios de 5 minutos. Ela vem utilizando esta técnica há alguns anos e garante funcionar bem. “Aprender a dizer ‘não’ também ajuda muito”, brinca.

Felipe Matos, mentor e autor do livro “10 mil startups”

Trabalhar até tarde e suportar todo tipo de pressão faz parte da jornada empreendedora. O problema começa quando isso vira rotina sem pausas.

Felipe Matos é um dos empreendedores e mentores mais respeitados do ecossistema. Mas até ele chegou ao fundo do poço e teve que ter muita força para se reerguer. Desenvolveu gastrite, apneia do sono, síndrome do pânico e até câncer de pele. Foi a gota d’água. A crise depressiva chegou em seu auge. Não conseguia se levantar da cama, tudo doía, da cabeça aos ossos. E junto havia uma sensação de desesperança intensa. Até hoje ele não sabe bem como saiu daquela situação. Precisou se afastar por 3 meses para focar no tratamento. Quando retornou, sabia que precisava de uma mudança radical na forma como encarava o trabalho, em nome de mais equilíbrio e qualidade de vida.

Para Felipe Matos, no empreendedorismo, especialmente nas startups, existe um certo mito do empreendedor super-herói, que dá o sangue pela empresa. É bonito virar noites trabalhando e se esforçar sempre ao máximo pelo negócio. São características valorizadas e estimuladas pela cultura. É claro que empreender exige trabalho duro e muitas vezes é necessário sim dar aquele extra de dedicação para concluir um projeto. O problema é quando vira a rotina padrão. Não há ser humano que aguente uma vida de trabalho constantemente no limite da exaustão. Não é saudável fisicamente, mentalmente e emocionalmente. Precisamos falar sobre isso para evitar a formação de uma geração de jovens doentes.

O corpo dá muitos sinais,  mas você se recusa a parar.  Por um lado, o ambiente é tão competitivo e há tanto para fazer na vida empreendedora que você nem consegue cogitar essa possibilidade como viável.  Por um lado, parar significa admitir uma certa “derrota” profissional. Então, insistimos até o limite, que é o burnout. Eu vejo como um mecanismo biológico de defesa extrema. O corpo queima os fusíveis e desliga para evitar uma sobrecarga fatal do sistema”.

Felipe explica que é  importante manter um mínimo equilíbrio entre as diferentes esferas da vida. Cuidar do corpo, da mente e das relações afetivas. Hoje ele faz psicoterapia, meditação e yoga e prioriza momentos de pausa para recarregar o corpo e a mente – explica que é pausa de qualidade, não vale só ir descansar depois de chegar à exaustão ou só conseguir relaxar com o uso de álcool, por exemplo. Por fim, estar atento aos sintomas do corpo. Ele avisa quando alguma coisa parece dar errada. É importante saber ouvi-lo e, principalmente, não ignorar esses sinais.

3 – O que dizem os especialistas

Ter estresse é normal e até nos ajuda a tomar decisões no trabalho e na vida pessoal. Porém, em excesso, pode gerar doenças psicossomáticas. Laila Leme, psicóloga e especialista em burnout, explica que pessoas perfeccionistas, com necessidade de reconhecimento e que substituem a vida social pelo trabalho são mais propensas ao burnout. “O problema é que a pessoa começa a vivenciar apenas o trabalho e esquece de sua vida pessoal e social, de momentos de lazer e vai despersonalizando, vivendo sob um estresse muito grande que lhe consome, muitas vezes trazendo junto outros transtornos psicológicos como depressão, síndrome do pânico e crises de ansiedade, além de problemas físicos, por meio de somatização”, explica.

Para Tatiana Pimenta, CEO da Vittude, uma startup que conecta psicólogos e pacientes, o custo do capital emocional em qualquer empresa e em especial nas startups é altíssimo. Por vezes, este custo pode ser intangível, mas pode representar o sucesso ou fracasso de uma organização. “Startups, principalmente as que estão em estágios iniciais de tração, experimentam ambientes de extrema pressão, instabilidade e incerteza. A falta de inteligência emocional leva várias empresas à ruína. A divergência entre sócios é uma das razões pelas quais startups com produtos muito bons acabam patinando e por vezes fechando”, explicou.

Daniel Vasserman, startup hunter da ACE e psicólogo, diz que ainda existe muito preconceito em procurar uma ajuda profissional, muitos acham que buscar apoio psicológico e terapêutico é “coisa de louco”. A busca por suporte nesse sentido está muito associada à doença. Além disso, ainda há um fator de desconhecimento: nem todo mundo entende que precisa de ajuda.

“Ter algum tipo de apoio emocional é muito importante para sobreviver. Quando existe uma estabilidade desse apoio e os sintomas são mitigados, a abordagem deixa de ser assistencialista e passa a ser uma plataforma para aumento de produtividade: quanto mais consciente de como reage à situações de pressão e estresse, melhor você performa”, enfatizou.

Esta matéria é para você se conscientizar que “cuidar da cabeça” não é bobagem, é realmente coisa séria! E, qualquer coisa, faça igual a programadora Madalyn Parker que enviou um e-mail para a sua equipe e lideranças dizendo: “Oi, pessoal. Eu vou tirar hoje e amanhã para me concentrar na minha saúde mental. Espero voltar na semana que vem renovada e 100%. Obrigada!”.

Madalyn trabalha na Olark, uma companhia de softwares dos Estados Unidos. Copiado na mensagem, o CEO da companhia, Ben Congleton, respondeu a funcionária: “Oi, Madalyn. Eu só queria pessoalmente agradecer a você por enviar mensagens como essas a sua equipe”.  Madalyn postou a resposta do seu chefe no Twitter e a mensagem viralizou, com muitos comentários aplaudindo a atitude.

Baixe já o aplicativo da StartSe no iOS ou no Android

 

Compartilhe:
Classifique: