A ciência e a arte de avaliar uma startup

Mensurar o valor de mercado e a chance de sucesso de uma startup é algo complexo. Saiba como realizar esta ação no artigo de Milton Lyra

#1 - Maior ecossistema de startups do país

5 de abril de 2018

*Texto por Milton Lyra é responsável pela área de New Business Development da Threetact Consulting

Mensurar o valor de mercado e a chance de sucesso de uma startup é algo tão complexo quanto subjetivo. Envolve não apenas ciência e técnica, mas também criatividade e bom faro. Essas habilidades são determinantes para quem decide investir nessas apostas, os chamados “investidores anjo”. É possível multiplicar o dinheiro empregado, desde que a ideia de negócio e seu processo de desenvolvimento tenham características específicas.

Investidor anjo há quase 10 anos, Marco Poli publicou, no site StartSe, que determinar o valuation de qualquer empresa envolve ciência e arte. Mais a primeira do que a segunda. No caso das startups, essa ordem se inverte.“Isso acontece, entre outros motivos, pela falta de histórico de performance da empresa, pois mesmo quando ela já tem alguns números para mostrar, esses números não são de lucro (necessário para o método de fluxo de caixa descontado) ou não são nas variáveis usuais para os múltiplos (ganhos por ação, EBITDA). Claro que se pode usar variáveis menos usuais, como receita em vez de lucro, mas cada mais isso pende para arte e cada vez menos para ciência”, disse.

Isso se deve às características que rodeiam as startups. A principal delas, para Yuri Gitahy, outro investidor anjo, é o imponderável. “Uma startup é um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza”, resumiu em reportagem da revista Exame. Segundo ele, não há como afirmar se a ideia e o projeto de empresa irão realmente dar certo ou se provarão sustentáveis.

É no modelo de negócio, e não necessariamente no produto ou serviço, que se deve prestar atenção. Para dar certo, a startup precisa gerar valor por meio desse modelo. Ele precisa ser repetível, ou seja, é preciso entregar o mesmo produto novamente em escala potencialmente ilimitada, sem muitas customizações ou adaptações para cada cliente. Isso pode ser feito tanto ao vender a mesma unidade do produto várias vezes quanto tendo-os sempre disponíveis independentemente da demanda. Também deve ser escalável, isto é, crescer cada vez mais, sem que isso influencie no modelo de negócios. Crescer em receita, mas com custos crescendo bem mais lentamente, para que a margem seja cada vez maior.

Avaliar tudo isso envolve diversos fatores, relativizados pelo local geográfico onde a startup atuará e pelo seu tamanho: investimentos necessários, logística, sistema de liquidação financeira, atuação territorial, utilidade, capilaridade e usuários. É dessa análise que emergirá o valuation, com projeções econômico-financeiras dos investimentos e dos resultados futuros, dentro das expectativas dos investidores e interessados. Tudo isso temperado com a análise subjetiva sobre incertezas relacionadas à situação econômica e política do Brasil.

Algumas perguntas servem de guia. O produto ou serviço oferecido é diferenciado? Há projetos concorrentes? Há dados suficientes para análise, levando em conta o tempo de existência e as características do projeto? Há parâmetros ou dados para comparação de resultado e performance? Como definir o potencial de crescimento de um projeto inovador? Qual o provável mercado a ser atingido?

No mercado nacional e internacional já existem métodos de avaliação de startups, todos eles com uma grande dose de subjetividade. O site da Fundação Dom Cabral lista os quatro a seguir.

O primeiro é o Método de Venture Capital, desenvolvido na Universidade de Harvard com base nas práticas dos gestores de fundos de venture capital de avaliação de empresas em estágios iniciais. A ideia é de um índice que usa a expectativa do valor do investimento quando o fundo vende a sua participação na empresa, que é então dividido pelo retorno sobre o investimento esperado pelo investidor.

O Método Berkus é outra opção, que calcula o valor das companhias levando em conta a qualidade dos seus profissionais e da ideia, e do estágio de desenvolvimento e de vendas. Cada fator vale US$ 500 mil, havendo uma escala em cada um deles.

Sete itens compõem o Método de Scorecard, também aplicável: força e qualidade do time (até 30%); tamanho da oportunidade (até 25%); produto (até 15%); ambiente competitivo (até 10%); marketing, canais de vendas e parcerias (até 10%); necessidade de capital adicional (até 10%); e outros fatores (até 5%).

Por fim, há também o Método do Risk Factor Summation (soma dos fatores de risco), que analisa 12 tipos de risco, sendo que, quanto maior ele for, menor o valor do negócio. Cada critério tem valores que variam de -2 até +2: time, estágio do negócio, competição, político, fabricação, vendas, capital, tecnologia, legal, internacional e reputação.

A organização societária e tributária da startup é outro ponto que não pode ser esquecido. Os diferentes modelos de sociedade têm, cada um, consequências e implicações próprias relativas a contingências fiscais e a conflitos entre os sócios.
Os próprios investidores também precisam ser alvo de avaliação. Isso porque a startup está sujeita a prestação de contas e, antecipadamente, a auditoria. Por isso, importa saber se os investidores serão pessoas físicas ou jurídicas ou se são fundos de investimentos. É relevante saber ainda se o capital é nacional ou estrangeiro.

Finalmente, quem avalia uma startup deve levar em conta os aspectos contábeis de projeção. As Normas Internacionais de Contabilidade (IFRS) trazem parâmetros para a qualidade da predição contábil e das estimativas. Elas dizem que, como consequência das incertezas inerentes às atividades empresariais, muitos itens, nas demonstrações contábeis, não podem ser mensurados com precisão, podendo apenas ser estimados. A estimativa envolve julgamentos baseados na última informação disponível e confiável. Além disso, a informação contábil não precisa ser uma predição ou uma projeção para que possua valor preditivo. Ela deve ser empregada pelos usuários para que façam suas próprias predições.

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