A batalha em busca do 2º sócio: designers, onde se escondem, do que se alimentam

O design é, na sua maior parte, inspiração e um designer com talento nasce assim. É o tipo de coisa que não se aprende

Tito Gusmão tem vários anos de mercado financeiro no Brasil e EUA. É ex-sócio da XP e fundador do Warren

18 de abril de 2017

Como mencionei no capítulo anterior, acredito que todo negócio online precisa ter sócios que preencham três áreas: produto, desenvolvimento e UX/Design. Eu era o cara do produto, já tinha conseguido o desenvolvedor e agora faltava a figura do UX Designer, mas encontrar não seria fácil.

Detalhe, eu chamo de UX Designer, mas entre os profissionais dessa área existe toda uma divisão certinha entre a figura do UI (user interface) e UX (user experience). No meu conceito leigo entendo que existe a usabilidade, o design e que ambos somados formam a experiência do usuário. Talvez o correto fosse chamar de UI/UX Designer ou mais correto ainda seria Mestre Ninja da Experiência do Usuário, mas ficarei apenas com UX Designer.   

O ponto é que não adianta a foto mais linda colocada no lugar errado, assim como não adianta o botão de call to action no lugar perfeito, mas que não emocione. Então o UX Designer é quem pilota usabilidade e design para trazer o efeito “uau, que foda”.

Pense no mundo offline. Você tem uma loja de roupas. O design vai da decoração da sua loja até os tipos de produtos que você vende. É o que mostra a personalidade da sua empresa e que conversa com o público que você quer atingir. A usabilidade é a jornada do seu cliente, o que tem na vitrine, como o cliente circula na loja, qual o espaço entre as araras de roupas, onde estão colocadas as camisetas que mais vendem, a proximidade de produtos complementares. A combinação perfeita entre ambos cria uma experiência incrível.   

O design é, na sua maior parte, inspiração e um designer com talento nasce assim. É o tipo de coisa que não se aprende. Claro que existe uma grande dose de treino e tentativa e erro, mas ter um olhar para criar coisas bonitas é um dom divino.

Já a usabilidade, na maior parte das vezes, é transpiração. É criar, testar, jogar fora. Mudar, testar, jogar fora. Mudar novamente, testar, jogar fora. E, depois de 50 vezes, descobrir que encontrou o fluxo certo.

Fugindo novamente do mundo online, um grande exemplo de obstinação por entregar experiência foi Sam Walton, o fundador do Walmart. Pra mim uma das melhores histórias da sua vida ocorreu quando ele quase foi preso no Rio de Janeiro por estar de quatro no chão com uma trena na mão medindo espaços de corredores e distância das prateleiras no Carrefour. Ele já era um bilionário, o Walmart já era uma das maiores empresas do mundo, mas ele estava lá tentando aprender o que os brasileiros estavam fazendo para melhorar ainda mais a experiência dos clientes dele.

Mas, se design é resolvido com uma alma de artista e usabilidade com uma alma obstinada, é possível encontrar uma pessoa que misture essas duas habilidades?  

Tudo é possível. A pergunta certa seria: É fácil?

E daí a resposta seria: Não!

Mas era essa pessoa que eu precisava encontrar e realmente não seria uma missão fácil.

Eu estava em NY e não conhecia ninguém desse perfil na cidade, então a primeira ideia foi tentar garimpar na minha base de contatos no Brasil. Fui chamando amigos, amigos de amigos, indicados de amigos de indicados e marcando um papo atrás do outro no skype. Eu não tinha nada. Só a ideia de um projeto e, claro, a grande maioria das pessoas foi me dizendo um não atrás do outro.

Das quase 30 tentativas apenas quatro tinham dito ter algum interesse e, quando isso acontecia, eu fazia um teste. Eu pedia que fizessem um fluxo básico de três cards ensinando uma pessoa a derreter um cubo de gelo. Era uma brincadeira simples para entender como a pessoa pensaria na jornada e como seria o design. Das quatro pessoas duas delas nem responderam o teste (provavelmente acharam idiota demais) e as duas que responderam fizeram coisas horríveis.    

Eu seguia sem ninguém até que entre essas indicações surgiu uma pessoa que já tinha feito um trabalho pra mim há 5 anos. Um gênio, muito talentoso e com trabalhos dos mais malucos possíveis (eu nem precisaria fazer o teste idiota). Ele adorou a proposta do Warren e entrou pro time. Fizemos diversos planos e lá estava o Trello ainda mais cheio com os primeiros esboços.  

Cheguei a comprar passagem dele para a primeira reunião da equipe do Warren nos EUA (no próximo capítulo vou falar sobre como organizei o primeiro investimento e sociedade) e quando tudo parecia bem, recebi uma mensagem de que essa pessoa estava fora.

Era peça fundamental do time e abandonava o barco sem nenhum motivo muito aparente. É claro que o baque de perder uma pessoa assim enche sua cabeça de pensamentos nada construtivos, como: Será que ela está caindo fora porque o projeto é ruim? Será que eu mesmo devo continuar? Será que esse barco vai afundar?

Mas esses pensamentos, que também aconteceram em outros momentos, passaram rapidamente pela cabeça e foram embora. Se você sente esses medos, fica tranquilo, é assim mesmo. Aliás, fique preocupado se for o oposto. Se você não estiver sentindo nenhum tipo de medo é porque não está arriscando o suficiente.

Por sorte eu tenho um antídoto caseiro para esses momentos. Sempre lembro da minha mãe que, quando eu era pequeno, tentava inventar alguma coisa e dava errado dizia “engole o choro, levanta e continua”.

Um empreendedor tem que fazer isso o tempo todo. Surgiu um problema, levanta a cabeça e foca em achar a solução. Rápido!

Bem… eu estava novamente na estaca zero e precisava resolver o problema. Mudei a estratégia e parti para encontrar alguém em NY. Fui tentar me enturmar na turma de designers me inscrevendo em cursos e eventos, porém só achei um meetup que ocorreria um mês depois. Como um mês é uma eternidade, resolvi tentar um plano B. Fiz uma lista de umas 7 ou 8 agências digitais. Eu agendava a reunião e chegava a apresentar o Warren, mas como eu já sabia que o orçamento seria astronômico e que eu não poderia pagar, essa não era a missão principal. A missão era encontrar alguém no lobby ou nos segundos de elevador e tentar fazer o pitch. “Oi, você trabalha aqui na agência xyz? Legal, e faz o que? Designer!? Puxa, que ótimo. Tenho um projeto e estou precisando demais de um designer, você toparia falar depois pelo messenger ou fone?” Já tinha visitado três agências, recebido uns quatro ou cinco “nãos” e dois “sins”. Porém o papo posterior com os “sins” não tinha rendido.

Eu casava essas visitas no meu horário de almoço, pois seguia com meu “trabalho oficial”. Inclusive, por causa dele, eu teria uma viagem ao Rio de Janeiro na semana seguinte. Essa viagem me ajudaria a achar o terceiro sócio.

Uma das agências da lista a ser visitada era a Huge, uma das dez maiores dos EUA e que tem sua matriz no Brooklyn. Eles só tinham espaço na agenda para uma reunião em três semanas (eternidade), mas, por sorte, eu tinha a tal viagem marcada para o Rio de Janeiro e eu conhecia uma pessoa da filial da Huge do Rio de Janeiro.

Marquei um papo e lá fui eu pegar o avião mais animado na possibilidade de tentar achar alguém nos corredores da Huge do que em cumprir meus compromissos “oficiais” do meu “trabalho oficial”.

Cheguei na Huge uma hora antes do combinado. Eu precisava o máximo possível de tempo na sala de espera pra ver se cruzava com alguém que eu poderia chamar para o pitch e funcionou. Passou o Rodrigo, um cara que eu já tinha trabalhado junto, tinha perdido de vista e estava agora na Huge. Eu o cumprimentei, falei rapidamente o que eu estava fazendo e disse que mandaria uma mensagem mais tarde. Segue o trecho da mensagem sem cortes ou correções.

Marcamos um skype depois dessa mensagem e Rodrigo se tornou a terceira peça que faltava.

Tínhamos o time completo. Foi complicado, mas é fundamental você dedicar tempo em ter as pessoas certas do seu lado. Agora podíamos começar a construir o Warren e é isso que vou falar no próximo capítulo.

Vou falar da importância de fazer a roda girar, saindo do campo das ideias para o campo das realizações. Organizar o To Do, cronograma com metas de cada um e também as finanças iniciais e participações.

O próximo capítulo será disponibilizado na próxima segunda-feira e vai se chamar: “Fazendo a roda girar: como organizamos a construção do primeiro protótipo.”  

Faça parte do maior conector do ecossistema de startups brasileiro! Não deixe de entrar no grupo de discussão do StartSe no Facebook e de inscrever-se na nossa newsletter para receber o melhor de nosso conteúdo! E se você tem interesse em anunciar aqui no StartSe, baixe nosso mídia kit.

Receba o melhor do nosso conteúdo para te ajudar

Compartilhe:
Classifique: