Compacta, Inteligente e Sustentável — A cidade do futuro

Uma das tendências mundiais no que se refere a planejamento das ocupações urbanas é o conceito de cidade compacta.

Sócio @ StartSe no Vale do Silício

29 de novembro de 2017

Por Rodrigo Barros, Empreendedor, comunicador, escritor, palestrante e atual secretário de desenvolvimento econômico e inovação em Guarulhos

Lideranças locais de várias partes do mundo, grandes empresas de tecnologia, especialistas independentes e entidades não governamentais, debateram o inevitável deslocamento da população mundial para as cidades e a sustentabilidade destas mesmas cidades no médio e longo prazo no âmbito do Smart CIty Expo World Congress 2017, realizado na Fira Barcelona, na Catalunha, entre os dias 14 e 16 de novembro – um dos principais eventos destinados à temática de cidades inteligentes no mundo.

Em estudo publicado no dia 31 do mês de julho deste ano, o IBGE estima que 76% da população brasileira está situada em Municípios considerados predominantemente urbanos, municípios estes que correspondem a apenas 26% do total de municípios existentes no país. No âmbito mundial, estudo da ONU publicado em 2016 aponta que 54,5% da população vive em áreas urbanas, sendo estimado para 2030 que esse percentual chegará 60%, e além disso 1.7 bilhões de pessoas, equivalente a 23% da população mundial, vive em cidades com mais de 1 milhão de habitantes.O Brasil encontra-se acima da média mundial em percentual de população localizada em cidades, mas o deslocamento das populações pra esses grande centros urbanos se dá, em geral, de forma desordenada e expandindo a mancha urbana horizontalmente nas regiões marginais, situação que traz consigo uma série de problemas sociais e urbanos com os quais as Prefeituras terão de lidar.

Uma das tendências mundiais no que se refere a planejamento das ocupações urbanas é o conceito de cidade compacta. Ao invés de permitir a continuidade da expansão horizontal, os municípios precisam criar políticas públicas que promovam o adensamento da ocupação da mancha urbana existente, privilegiando o uso misto, com trabalho, serviços e lazer próximos das residências. Este conceito de planejamento urbano é uma das principais tendências para o futuro devido à constatação de que o modelo de expansão horizontal é insustentável no longo prazo: aumentam as distâncias e a necessidade de deslocamentos, bem como o custo de infraestrutura e da prestação de serviços públicos – aqui se inserindo a adoção das soluções inteligentes que deverão revolucionar a relação da população com a cidade no médio prazo, aumentando a conectividade dos cidadãos, bem como a responsividade e a eficiência dos serviços públicos.

Eficiência é a palavra chave para a sustentabilidade das cidades e é a baliza para o desenvolvimento de diversas soluções inteligentes para as cidades: sensores integrados ao sistema de distribuição de água para controle de vazão, detecção de vazamentos e controle de consumo; iluminação pública inteligente com smart grid integrando em rede diversas soluções, como câmeras de monitoramento inteligentes capazes de otimizar, com o uso de softwares avançados, as ações de mobilidade e de segurança pública. Seguindo o modelo de cidade compacta, a adoção destas soluções pode se dar em áreas circunscritas, com núcleos regionais. Embora o custo neste modelo seja menor do que tentar abarcar a integralidade da área de uma cidade expandida horizontalmente, ainda assim é necessário investimento significativo em infraestrutura. A maior parte dos municípios brasileiros são incapazes de investir neste tipo de iniciativa com recursos do seu próprio orçamento, e é aqui que se torna relevante a aproximação com instituições financeiras internacionais e com o setor privado.

Para que as cidades brasileiras possam criar e manter relacionamento com instituições financeiras internacionais é preciso aprimorar seu compromisso com a saúde financeira, com a transparência e com a responsabilidade nos gastos públicos e contratações. A corrupção é uma das causas mais graves de ineficiência no funcionamento de um País e, ao pensarmos nas cidades do futuro, a adoção de mecanismos fortes de compliance são essenciais para que as cidades possam se mostrar aptas ao financiamento em nível mundial. Este reforço do compliance nas cidades anda de mãos dadas com a necessidade de aproximação com o setor privado, sendo necessário para afastar o preconceito segundo o qual a corrupção seria um subproduto inevitável desta relação.

Grandes grupos estrangeiros que desenvolvem soluções para cidades inteligentes têm vindo ao Brasil apoiados por instituições financeiras e fundos de investimento públicos e privados capazes de sustentar estas iniciativas diante de uma perspectiva de retorno financeiro de longo prazo para produzir impacto social de curto e médio prazo. Na formatação das Parcerias Público-Privadas – PPPs, modalidade contratual que vem se consolidando como forma de viabilizar estes empreendimentos em nosso país, os mesmos princípios de compliance se aplicam para a atração dos atores sérios do mercado, com a adoção de processos abertos e transparentes que permitam a concorrência efetiva e a realização do potencial da infraestrutura que será criada. Neste âmbito são relevantes as iniciativas que surgem em todo o Brasil para criação de Smart Grids através de PPPs na área da iluminação pública: tendo na COSIP uma fonte regular de receita, é possível construir planos de modernização dos parques de iluminação pública com adoção de telegestão e previsão da possibilidade de acoplagem de serviços com geração de receitas acessórias, permitindo a muitos municípios dar o primeiro passo em direção ao modelo de cidade inteligente.

Projetos de cidade inteligente, para que se tornem viáveis, precisam de mais do que financiamento: precisam de governança. Estas iniciativas envolvem invariavelmente ações de médio e longo prazo, extrapolando os limites de uma única gestão municipal, e devem estar ancoradas em estruturas de governança capazes de resistir às intempéries do ambiente político para evitar quebras de continuidade que podem colocar todo o projeto abaixo. Foi esta a experiência de Barcelona na implantação do seu “distrito da inovação”, [email protected], criado no modelo de cidade compacta através da ampla revitalização urbana de uma antiga área industrial abandonada, sendo a vanguarda na aplicação dos conceitos que acabamos de expor. Para garantir a governança do projeto, foi criada no ano 2000 a Societat Municipal [email protected] Barcelona. Esta companhia garantiu a continuidade do projeto independentemente da mudança de governos, estabelecendo uma estrutura colaborativa em rede com diversos profissionais que se envolvem no projeto., organizados através de lideranças de clusters, centralizadas em entidades sem fins lucrativos específicas. Embora no início a companhia municipal tivesse uma estrutura mais complexa abrangendo temas diversos, com a estruturação das lideranças de cada cluster ela passou a lidar essencialmente com o planejamento urbano e a infraestrutura, enquanto a liderança de cada cluster concentrava interesses e demandas de cada setor.

Eventos como o Smart City Expo World Congress 2017 promovem um relevante intercâmbio entre cidades e entre empresas, colocando em contato diversas experiências e modos de pensar. As soluções efetivas para os desafios de cada cidade, para que sejam efetivas, deverão ser capazes de atender às demandas e peculiaridades locais. Estas demandas e peculiaridades só podem ser identificadas em cada localidade, através de um processo de autoconhecimento envolvendo as comunidades afetadas. Cada cidade tem a sua identidade, e deve trilhar um caminho compatível com ela.

O contato com atores de todo o mundo, porém, pode nos tornar abertos a novas perspectivas e permitir abordagens diferenciadas de problemas que antes pareciam sem solução. Conexões globais e soluções locais deverão pautar o caminho para as cidades do futuro: compactas, inteligentes e sustentáveis.

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