Empreendedora brasileira faz pele artificial e pode revolucionar indústrias

Mas há uma empresa, de uma brasileira, entre as mais promissoras de biotech do mundo, a OneSkin, que fabrica pele artificial para utilização em testes da indústria de cosméticos e farmacêutica

Felipe Moreno é editor-chefe do StartSe e fundador da startup Middi, era editor no InfoMoney antes

8 de março de 2017

Por melhores que sejam as startups brasileiras, elas raramente envolvem tecnologia pesada. Elas não são de robótica, biomedicina ou outro termo mais complicado. Inclusive, encontrar e atrair talentos para as startups destes segmentos por aqui é bem difícil.

Mas há uma empresa, de uma brasileira, entre as mais promissoras de biotech do mundo, a OneSkin, que fabrica pele artificial para utilização em testes da indústria de cosméticos e farmacêutica. Só tem um detalhe: a companhia – fundada por Carol Reis – não fica no Brasil. Fica no Vale do Silício.

Mas foi aqui no Brasil que a mineira se formou. “Eu tenho uma formação bem acadêmica, fiz doutorado em bioquímica. Desde que eu escolhi o curso era para buscar uma medicina aplicada, com pesquisas para, lá na frente, para chegar no mercado”, afirma Carol Reis, fundadora da OneSkin.

Sua experiência empreendedora começou aqui, inclusive – quando ela estava terminando o doutorado. “No douturado comecei a trabalhar com células tronco. No final do doutorado eu já tentava interagir com empreendedorismo, fiz parte de empresa junior. E no final do doutorado eu conversei com uma colega, chegamos em um projeto e fomos buscar formas de tirar essa ideia do papel”, destaca.

Aqui no Brasil, ela tentou empreender procurando um programa governamental que pudesse apoiá-la. “Procuramos editais para achar financiamento, até encontrar o edital do Seed, que escolhia projetos ainda em ideia. E fomos aceitas. Foi uma surpresa ser selecionado, pois todas escolhidas eram de TI. Éramos as únicas de biotech”, conta.

Elas tinham um plano inicial, que se difere da empresa atual – o objetivo era suprir uma indústria gigantesca. “Nossa ideia inicial era produzir diferentes tipos de células humanas a partir de células troncos. E queríamos vender essas células para industrias que precisassem testar novos medicamentos”, destaca.

Contudo, perceberam que talvez não estivessem focando no cliente correto. “No Seed começamos a validar essa ideia. Conseguimos pensar em um modelo de negócios, como entrar no mercado. Mas vimos que a indústria farmacêutica no brasil inova muito pouco. A indústria de cosméticos inovava muito mais e tinha uma pressão para substituir os testes em animais”, afirma Carol.

Montaram uma startup e tentaram empreender no Brasil, mas logo veio o convite para ir para o Vale do Silício. “Logo depois entramos no Startup Brasil e fizemos uma startup chamada Cellseq. Fizemos um demoday em um Startup Week e vieram alguns investidores de fora. Eles me conectaram com um amigo deles que tinham uma aceleradora de Biotech em São Francisco, a IndieBio”, conta a empreendedora.

Uma nova vida empreendedora no Vale do Silício

Logo, Carol percebeu que empreender no Vale do Silício seria melhor, dada a natureza de seu projeto. “Começamos a conversar com o pessoal daqui de São Francisco, com o pessoal focado em biotech. Se a gente conseguisse vir para cá, isso ia ser uma oportunidade para encontrar nosso lugar no mercado de fato. As aceleradoras no Brasil não tinham muita experiência para acelerar uma empresa de Biotech. Aí ainda estão amadurecendo”, destaca.

O interessante é que o programa de aceleração era muito claro, muito focado e tinha um objetivo muito claro: o que ajudou (e muito) para que Carol conseguisse desenvolver algo bacana. “Focamos em um único projeto para essa aceleradora que pudesse formar uma patente no final, e eles selecionaram a gente. Era um recurso muito bom, US$ 250 mil. US$ 200 mil em cash. Era um programa de aceleração muito bom”, afirma.

Uma experiência no Vale

Foi um período duro, mas muito proveitoso para que Carol fizesse grandes progressos na empresa e como profissional também. “Eu não tive nem tempo de adaptação, cheguei na segunda e na terça já começou o programa de aceleração. Foram quatro meses insanos, foi algo que testou meus limites, mas em momento nenhum eu reclamei”, destaca.

O que ela mais ressalta é a mudança de mentalidade que ela teve depois de passar algum tempo no Vale do Silício. “Foi muito aprendizado. Foram quatro meses que geraram experiência por anos. Foi uma mudança de mindset imensa. No primeiro dia, o CEO da aceleradora chamou a gente para falar que nosso projeto tinha potencial para impactar bilhões de pessoas”, afirma.

Ela ficou maravilhada com as pessoas ao seu redor que estavam mudando o mundo com projetos maravilhosos. Mas se deu conta de que ela mesma era uma dessas pessoas que tinham a chance de mudar o mundo. “Vi gente fazer projetos extraordinários. Coisa que te surpreende. E você percebe que teu projeto também é desse nível. Esse é o jeito certo de pensar”, acredita.

Ela ressalta que existe uma diferença de mentalidade gigantesca entre o Brasil e o Vale do Silício: é um dos motivos pelos quais a região transforma o mundo. “No Brasil a gente pensa como fazer a empresa sobreviver, e aqui se pensa como as coisas vão impactar o mundo. É impressionante. A barra é muito grande”, destaca Carol.

Lá se entendeu que projetos que vão ter um impacto social precisam ser financeiramente sustentáveis, ou seja, precisam se tornar um negócio rentável. “Eles querem ter retorno aqui, tem que mostrar resultado toda semana. São programas privados, enquanto no Brasil isso é governamental”, completa.

Por isso, se o negócio não é viável, as empresas morrem e o empreendedor parte para a sua próxima. O que é bem diferente do Brasil. “Se você não tem clientes ou investidores no final de quatro meses, eles determinam que você vai morrer. Em quatro meses, você precisa validar seu projeto”, conta.

O Brasil precisa de uma mudança para começar uma caminhada de desenvolvimento mais agressiva que permita o País a se tornar uma nação desenvolvida. “Isso é uma preparação muito grande. No Brasil a gente vai levando, fica um pouco acomodado. Precisa um pouco mais de um choque de realidade”, afirma.

Adoramos o Vale do Silício e a mentalidade dele. Para ajudar os brasileiros a absorverem essa mentalidade, temos duas iniciativas: o Silicon Valley Learning Experience, que leva brasileiros ao Vale para absorver o que lá tem de melhor. E o Silicon Valley Conference, o maior evento sobre o Vale já feito no Brasil.

Não adianta voltar para o Brasil

Por conta disso, Carol Reis e a OneSkin decidiram que não vão voltar para o Brasil. “Não fazia sentido voltar para o Brasil, ia aumentar muito o risco de a empresa morrer. Aqui já temos networking e dois grandes clientes. Além do mais, hoje eu não penso só no Brasil, hoje eu penso global”, avisa.

A empresa fez grandes avanços nos últimos meses e segue no objetivo de produzir pele artificial. “Acho que estamos no caminho certo, já pivotamos umas três vezes para chegar nessa proposta. Nossa proposta inicial era para reproduzir só a epiderme, e as empresas não estavam interessadas só nisso”, destaca.

Ela ouviu os clientes e determinou que seu produto deveria ser levemente diferente do que ela estava apresentando. “Eles queriam mostrar como o produto deles funcionavam. E aí determinamos que tínhamos que reproduzir a pele completa, a epiderme e a derme. Mas tinha muita gente neste mercado”.

A utilidade de seu produto é gigantesca. “Esse mercado de antienvelhecimento estava crescendo bastante, mas não tinha como provar que o produto estava funcionando, que tinha resultado. A gente viu que tinha como medir a idade da pele através da DNA, e podíamos ver se os produtos estavam funcionando”, destaca.

“O que a gente faz hoje é produzir uma pele e depois envelhecemos a pele, através de testes de stress e podemos testar como os produtos agem na pele depois disso. Essa é a nossa proposta principal, com uma metodologia muito mais precisa que antes”, conta. Essa tecnologia a permite ser muito mais eficaz para testes, eliminando a necessidade de humanos e animais – uma pressão ética que as companhias estão passando no momento.

Além disso, o produto da OneSkin é completo, pois consegue permitir que as empresas de cosméticos façam testes que não eram possíveis, a não ser que fossem feitos com pessoas. “Conseguimos reproduzir peles de diferentes etnias, diferentes idades e podemos avaliar como os produtos funcionam para cada tipo de pele”, destaca.

E claro, Carol tem grandes planos para o futuro – quando vai melhorar ainda mais a disponibilidade da OneSkin, usando tecnologia e inovação. “E queremos criar um machine learning para determinar como cada novo produto vai atuar em cada tipo de pele. Assim a gente traz uma coisa muito nova para este mercado”, termina.

Torcemos para o seu sucesso e entendemos que a OneSkin é uma prova de que startups podem fazer produtos inovadores que podem melhorar indústrias já estabelecidas. É o que acreditamos no StartSe e promovemos no evento Corporate Class, que junta grandes nomes de inovação corporativa para tratar.

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